Remexer no passado é quase como nadar em seco.
Não gosto de remexer no passado, mas há marés na vida em que temos mesmo de o enfrentar, quanto mais não seja porque o passado é o único mapa que temos disponível para nos situarmos. O amanhã? O amanhã pode ser brisa ou tempestade. O futuro é o hoje e o agora; aquilo que se constrói neste momento.
Sempre dei as braçadas e os passos que achei serem os correctos num determinado contexto, por isso, raramente me arrependo do que “ficou para trás”.
Eras aquilo que eu julgava que fosses: o marido perfeito. Calmo, certinho, trabalhador e mais uns quantos atributos que eu tinha como suficientes para construir a minha arca de Noé. Escolhi a nossa casa, os nossos móveis, o nome do nosso filho… Nas épocas especiais, arranjava programas românticos a dois, decorava a árvore e a mesa para receber os familiares de ambos os lados na noite de Natal e festejava sempre os teus aniversários, ainda que me dissesses que não ligavas a “essas coisas”.
É verdade que eu tinha um casamento que, aos olhos de quem estava de fora, era o casamento ideal: um marido gentil que me fazia todas as vontades. O que quem estava de fora não sabia era que tu próprio não tinhas uma vontade e por isso era-te mais fácil deixares-te guiar. Assim, se as coisas algum dia dessem para o torto, como acabou por acontecer, sempre podias lavar dali as tuas mãos (que foi, aliás, o que virias a fazer). E o que quem estava de fora também não sabia era que eu poderia parecer ter tudo para ser feliz mas que, afinal, não tinha nada porque me faltava o básico: o teu esforço ou, pelo menos, o teu carinho e reconhecimento.
Quando se rema apenas para um lado, começa-se a andar em círculos e não se sai do mesmo sítio. E então, só nos restam duas alternativas: ou desistimos de remar e nos deixamos ir à deriva ou abandonamos o barco.
Não compreendo que, ainda hoje, não aceites o facto de eu ter decidido fazer-me ao mar em busca de terra firme. É que, afinal, não te afundaste e até arranjaste uma bóia a que te agarrar. E eu desejo, muito sinceramente, que mantenhas o rumo nessa tua nova vida. Mas sabes, a felicidade é uma rota que temos que tomar por nós próprios. Outras pessoas podem servir-nos de bússola mas somos NÓS que temos que enxergar o farol.
Eu continuo perto do mar (agora mais do que nunca). De vez em quando, a maré traz-me destroços do passado e também alguns troncos ocos que eu vou aproveitando para construir a minha canoa. Está quase pronta e o nosso filho, está a aprender a remar.
6 comentários:
Há vária gente que não gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado é reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a ternura e a legenda, o absoluto e a música, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro já se lhe toca com a mão. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a não tem...
Vergílio Ferreira
Força amiguita!
Beijo grande
Amiga Lua,
As bóias nem sempre são confiáveis, podem furar.
Fazes muito bem quando vais em busca de terra firme, de onde podes mergulhar ao mar sempre que desejares.
Tenho certeza de que ensinas muito bem ao teu filho, a arte de remar.
Beijo grande grande
Parabéns pela coragem de te "despires" assim, para qualquer pessoa ver (ler). Já sabia que eras uma "gaja de força", percebo agora melhor porquê.
O último parágrafo do teu post é fantástico...
Beijos, Lua
Não fossemos nós um país de marinheiros e com um passado impossível de esquecer!
Força miúda!
Beijocas.
Miuda, fizeste o que tinha de ser feito, hoje é muito doloroso, amanhã será apenas doloroso, e depois de amanhã será uma simples recordação de um momento de vida muito dificil.
Beijos bué de grandes
Deixo o meu abraço solidário de quem ja aí esteve, com as respectivas diferenças que nos fazem a todos únicos.
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