Os palavrões não nasceram por acaso! São recursos extremamente válidos e criativos, abastecem o nosso vocabulário de expressões que traduzem, com a maior fidelidade, os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a construir a sua língua. Tal como o Latim Vulgar, será este Português Vulgar que vingará, plenamente, um dia."Pa caralho!", por exemplo. Que expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pa caralho"? "Pa caralho" sugere o infinito, é quase uma expressão matemática. Ex: A via láctea tem estrelas pa caralho! O sol está quente pa caralho! O universo é antigo pa caralho! Eu gosto de cerveja pa caralho!
Dentro do género da expressão anterior, mas expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem que venhas cá com a língua!" É irretorquível e acaba com qualquer discussão. Liberta-nos, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse. Ex: O seu filho de dezoito anos massacra-o para que lhe empreste o carro para ir surfar para a Ericeira? Não perca tempo nem paciência! Solte um definitivo "Joãozinho, presta bem atenção, filho querido: Nem que venhas cá com a língua!" O puto vai direitinho para o centro comercial, ter com os amigos, e você pode voltar a deliciar-se com os Deolinda.
Por sua vez, o "Porra nenhuma!" encaixou, tão plenamente, nas situações em que o nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra declarados bluffs, que hoje é totalmente impensável que possamos viver sem ele no nosso quotidiano. Ex: Como podemos comentar a idiotice do nosso chefe sem soltar um " Ele sabe lá! Não sabe porra nenhuma!" ou então "Fez o relatório sozinho porra nenhuma!" O "Porra nenhuma!" dá-nos uma sensação de incrível bem estar interior. É como se estivessemos a fazer a tardia mas justa denúncia de um grandessíssimo canalha.
Existem outras expressões igualmente clássicas. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!" ou do seu derivado "Puta que o pariu!". Ditos assim, cadencialmente, sílaba por sílaba, diante de uma notícia irritante, qualquer uma delas nos coloca novamente nos eixos. Os nossos neurónios têm o tempo e o espaço devidos para se reorganizarem e podermos sacar a atitude certa para dar o merecido troco ou safarmo-nos de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do tão famoso "Vai levar no cú!" Já imaginou o bem que faz a si próprio, e aos seus, quando, passando o limite do suportável, se dirige ao antipático do seu interlocutor e lhe diz: "Chega! Vai levar no cú!"Pronto! Retoma as rédeas da sua vida, a sua auto-estima. Desabotoe o botão de cima da sua camisa e vá para a rua, sinta o vento nas suas faces, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de amor-próprio nos lábios.
Seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Tou fodido!" Não há resposta mais exacta, pungente, e arrasadora para uma situação que atingiu o maior grau imaginável de ameaçadora complicação. Expressão essa, que inclusivamente insere o seu autor num contexto interior de alerta e autodefesa. Ex: Vai a conduzir, embriagado, sem documentos do carro e sem carta de condução, em excesso de velocidade, e surge a sirene do carro da BT, que o manda parar. O que é que diz?
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "Foda-se!" que essa pessoa diz. Não há nada mais libertador do que o conceito de "Foda-se!". Aumenta a nossa auto-estima, transforma-nos em pessoas melhores, reorganiza as coisas. Ex: "Não quer sair comigo? Então foda-se!" ou "Tem a certeza que é mesmo assim? Então foda-se!". O direito ao "Foda-se!" deveria estar salvaguardado na Constituição. Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Foda-se!
4 comentários:
Tive a pensar Amiga, e se nós dissermos os palavrões todos a seguir uns aos outros e os repetirmos vezes sem conta ? Será que é uma boa terapia para os momentos em que não somos capazes de dar a volta por cima. Hei-de experimentar, pode ser que resulte.
Beijos Amiga
Texto irretocável!
Mas, se aceitas, deixo aqui a minha humilde contribuição ao fazer a tradução para o português tupiniquim:
Pa caralho = Para ou Pra caralho
Nem venhas cá com a língua = Cala a boca ou te encho de porrada
Porra nenhuma (carece de tradução...É universal!)
Puta que pariu = Por aqui é o mesmo, mas há uma variação: Puta que ME pariu.
E, ainda há o PUTZ que é a forma reduzida
Vai levar no cu = Vai TOMAR no cu
Tô fodido = ME FODI DE VERDE E AMARELO e ainda há as formas reduzidas: TÔFU, MIFU e SIFU
Também há o célebre: VÁ SE FODER
Aproveito para concordar com a Isabel...Sim, é mesmo terapêutico o uso do palavrão. Chega a ser catártico! Os profissionais de saúde recomendam!
Bem que dizer? O texto está muito bem escrito, não fora os palavrões nele contidos. Fonix....
Não conhecia o "Nem que venhas cá com a língua!"
:))))
Agora, o foda-se ou vai pó caralho é um alívio para o fígado...
Beijos
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