Tinha uns 7, 8 anos de idade e era a primeira vez que ia sozinha a uma festa. De aniversário, é claro, de um amigo ou amiga (não me lembro). E, eu tímida, sim, tímida… fiquei quietinha num canto, observando aquele desfile de figuras, quase todas mais velhas, que circulavam no auge de quase uma década de vida….! Dez anos! Com meus sete, oito…. sentia-me uma pateta no meio de tanta imponência.
Estava tudo muito divertido enquanto era apenas um vulto no meio dos outros. Assim, podia observar sem ser observada. Há diversão melhor? Engano… Por mais que desejemos ser vultos, há sempre quem ame as sombras. E começou a música… E, os “cavalheiros” convidavam as “damas” para dançar… uma música lenta… Eu, só observava… Achava que estava imune, invísivel aos olhares, às outras crianças…
- Queres dançar?
- Hã?
- Queres dançar?
- Quê?
- Queres dançar?
- Não estou a ouvir… o que disseste?
- Nada.
Dois tímidos. Eu fingi não ouvir o convite por vergonha e medo de aceitar. Ele fingiu não ter convidado por vergonha e medo de ser recusado. Resumo: Não dançamos.
Engraçado que essa história sempre me vem à mente. É como se alguma coisa ali, que dependesse daquela dança, mudasse o rumo das coisas. Não me lembro do nome do garoto, da sua fisionomia, da música que tocava, e sequer quem era o aniversariante… mas, não me esqueço da sensação - de pavor e satisfação - de ter alguém, ali, deslumbrado com nossa existência.
Não aconteceu. Nossa dança não houve. Lembro-me também da sensação, quase de arrependimento de não ter aceite imediatamente o convite. De pensar que “e se eu tivesse ido”… ou “o que teria mudado”… ou, o que uma simples dança de crianças pode mudar na vida de alguém? Nada? Muita coisa? Tudo?
Hoje, ao ler o texto abaixo, lembrei-me dessa história novamente. Não com a idéia de arrependimento. Não há a angústia. Não foi isso que ficou. Mas, sim, a pergunta… e se….? Isso teria mudado alguma coisa em mim?
Existem acontecimentos-chave que, se dependendo de sua realização, alteram o que somos? Ainda que seja tontaria, como uma dança de crianças?
Kundera tem razão: a vida é só um esboço sem quadro…
E eu, até hoje, não aprendi a dançar…
Seria eu uma eximía dançarina se tivesse dito sim?
"Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores, nem corrigi-la nas vidas posteriores. Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro."
Milan Kundera
2 comentários:
Kundera a mim escrever coisas tão profundas como o Milan...
Engraçado, tive uma experiência semelhante. O garoto era por quem eu andava a suspirar pelos cantos e ainda assim deixei a timidez falar mais alto - Também não dançamos.
Quando fiquei maiorzinha, resolvi que nunca mais iria recusar uma dança. E tive a fama de ser a garota mais simpática e educada das festinhas, pois nunca dizia não. Nem para o pobre do Horácio (um gordinho de cara vermelha que vivia a soltar fedorentos e sonoros puns),nem para um outro (do qual nem lembro o nome) que mortalmente me pisava os pés.
Vês? Pra mim não teve o mesmo peso que pra ti.
O grande barato da vida é sermos diferentes, ainda que vivamos o igual.
Beijo grande pra ti, querida
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