segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sozinha em casa, aproveitei para recordar acontecimentos passados que guardo religiosamente, numa caixa de cartão.
Entre fotografias, postais, recortes de papel, cartas, rascunhos e outras bagatelas, tudo impregnado de vivências pessoais, acabo por descobrir sempre, num ou noutro fragmento, motivos para me entristecer ou para sorrir.
Abri-la e visitá-la é penetrar em sonhos remotos ou esquecidos, em detalhes da vida não vivida e renunciada, ou simplesmente descartada. É recordar sentimentos usurpados pelo tempo e já muito inválidos para poderem ser renovados ou reabilitados.
De facto, já não tenho idade para copiar poesia e remetê-la ao namorado com assinatura própria, ou para recuar ao tempo em que ambicionava as estrelas, desejava o impossível e acreditava em tudo, até mesmo na imortalidade dos sentimentos e da vida.
É verdade que continuo a gostar de me deitar na relva, de caminhar à chuva e a desejar parar o relógio quando o encontro é feliz, a companhia agradável ou o desejo me invade. Continuo a gostar de caminhar descalça e de dar gargalhadas, de ouvir o silêncio e a natureza, de gravar os pés na areia fina, de correr na praia e poder abraçar. E gosto do mar e da noite, de me deitar tarde e não levantar cedo. E gosto de ouvir histórias, de ler e aprender, de partilhar. Gosto muito, muito, de ter amigos e de muitas outras coisas mais. Em suma, gosto da vida. Também não é menos verdade que estou mais ponderada e racional. Que assento na experiência de todos os dias, agradecendo à vida os ensinamentos com que quis agraciar-me e que são fonte inesgotável de conhecimento pessoal e alimento de serenidade.
Mas a simpatia maior destas visitas, radica, na verdade, no invariável estado de espírito que aqueles fragmentos de passado, criteriosamente seleccionados, são capazes de me proporcionar. Tão depressa sou invadida por sentimentos de tristeza, de nostalgia e saudade provocados pela lembrança afectuosa das pessoas ausentes e das vivências com elas partilhadas, que foram momentânea e deliciosamente loucas, como, rapidamente, encontro motivos para me regozijar ao verificar que muitos daqueles fragmentos, com o tempo, ganharam concretização e dimensão real.
Apesar de não passarem disso mesmo, simples fragmentos do passado, conseguem ser o espelho e a representação dos desejos passados, dos sonhos idealizados, das ideias ensaiadas e incertas que acabaram por adquirir existência efectiva e redundaram em soluções de vida. Compraz-me, por isso, recordá-los quase permanentemente.

4 comentários:

A CONCORRÊNCIA disse...

Não há dúvida que nos vamos modificando no decorrer das nossas vidas. Eu tornei-me menos contestária, fui aceitando melhor as diferenças entre as pessoas, as diferentes formas de ver a vida, no entanto embora aceite que os outros possam ter principios e maneiras de olhar para o Mundo diferentes dos meus, mantive a minha essencia, continuo a acreditar no que acreditava. Não há nada melhor para compararmos o que somos e o que eramos que remexer no nosso baú das recordações.

zmsantos disse...

"As memórias são como livros escondidos no pó,
As lembranças são os sorrisos que queremos rever devagar."

Memórias de um Beijo - Trovante

Anónimo disse...

Sabes.... também tenho uma caixinha assim... e é o meu tesouro mais bem guardado, nele encontro-me com velhos amigos, nele revivo momentos que já lá vão... e mesmo qdo uma lagrimita teima em escorregar, é sempre o sorriso que acaba por ganhar e a paz instala-se :)

PS: tás no meu baú :P

MisteriosaLua disse...

Anónimo, se me conheceres, saberás bem que gosto de saber quem me guarda em baús...